Acessibilidade no transporte e participação: por que audiências, comunicação e fiscalização importam agora

Este artigo busca contextualizar essas mudanças, mostrar onde audiências públicas e canais de comunicação falham

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Nando Medeiros
· 6 minutos de leitura
Acessibilidade no transporte e participação: por que audiências, comunicação e fiscalização importam agora

Por que este tema importa agora

Leis novas e projetos em debate podem mudar, para melhor ou para pior, a rotina de milhões de pessoas que dependem de transporte público acessível. A atenção aumentou porque houve avanços legislativos recentes que mexem diretamente com prioridades de atendimento e reserva de assentos, ao mesmo tempo em que surgem propostas para alterar a forma como decisões sobre obras e serviços são comunicadas e debatidas. Para cadeirantes, pessoas com mobilidade reduzida e ativistas, isso significa que as regras do jogo estão em revisão, e o momento de pressionar pela implementação concreta das normas é agora.

Este artigo busca contextualizar essas mudanças, mostrar onde audiências públicas e canais de comunicação falham, analisar o impacto de um projeto de lei sobre comunicação com pessoas com deficiência e apresentar propostas práticas para governos, empresas e coletivos. A ideia é juntar o que mudou “no papel” com o que ainda não funciona na rua, para que usuários e militantes possam agir com argumentos consistentes e estratégias viáveis.

Nos últimos anos, a legislação brasileira avançou no reconhecimento de direitos das pessoas com deficiência no transporte, tendo a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) como marco principal. Ela prevê acessibilidade em veículos, estações e terminais, além da eliminação de barreiras arquitetônicas e de comunicação. Essa base jurídica vem sendo complementada por atos e alterações que tentam ampliar o atendimento prioritário e a identificação de espaços reservados para pessoas com mobilidade reduzida.

Em julho de 2023 foi sancionada a Lei nº 14.626, que reforça o atendimento prioritário a pessoas com mobilidade reduzida e determina a reserva de assentos em veículos de transporte público, com identificação obrigatória desses lugares e prioridade de atendimento em diversos estabelecimentos. Essas mudanças importam porque reforçam direitos já previstos na LBI e deixam mais claro o dever de empresas públicas e concessionárias de sinalizar e garantir espaços e atendimento adequados. Por outro lado, a existência da norma não assegura sua aplicação: faltam procedimentos de fiscalização padronizados, indicadores públicos sobre cumprimento e canais de comunicação que mostrem, de forma simples, onde e como a pessoa com deficiência pode reivindicar seus direitos.

Audiências públicas: função e lacunas atuais

As audiências públicas existem, em tese, para garantir participação social em decisões sobre obras, contratos e mudanças no transporte coletivo. Elas deveriam servir para que usuários apresentem necessidades, para que impactos de intervenções sejam debatidos e para que medidas de mitigação, inclusive em acessibilidade, entrem no projeto antes das obras. A presença ativa de pessoas com mobilidade reduzida é fundamental para que as soluções reflitam a vida real, e não apenas modelos técnicos.

Na prática, porém, várias falhas tornam as audiências pouco efetivas para cadeirantes e outros usuários com mobilidade reduzida. Primeiro, a divulgação costuma ser insuficiente ou em formatos pouco acessíveis: avisos em sites difíceis de navegar, PDFs não adaptados e comunicação concentrada em canais que quase não alcançam periferias. Depois, a logística, horários, locais sem acessibilidade, ausência de transporte assistido ou de recursos de comunicação, dificulta justamente a presença de quem mais precisa ser ouvido. Além disso, há o problema da representatividade: interesses organizados (como empreiteiras e empresas) dominam o espaço, e raramente há mecanismos para garantir prioridade de fala a pessoas com deficiência, o que dilui o peso dos relatos na decisão final.

Esse conjunto de problemas passa a sensação de que as audiências são um ritual burocrático, e não um verdadeiro instrumento de construção coletiva de políticas. Enquanto isso não mudar, a participação segue mais simbólica do que concreta, e o risco é que adaptações de acessibilidade entrem tarde demais ou apareçam apenas para cumprir exigências formais.

Projeto de lei e propostas em debate

Entre as iniciativas recentes em Brasília, destaca-se o PL 4.102/2024, que trata da melhoria da comunicação para pessoas com deficiência e avançou na Comissão de Direitos Humanos. Ele pode alterar a forma como órgãos públicos e empresas informam sobre obras, serviços e direitos. A proposta pretende facilitar a comunicação de pessoas com deficiência com o poder público, o que pode envolver desde o uso de canais alternativos até a obrigação de divulgar conteúdos em formatos acessíveis.

Se o projeto for aprovado e bem regulamentado, pode melhorar muito a convocação e o acesso às audiências públicas. Isso pode incluir a exigência de divulgação em formatos que alcancem cadeirantes e outras pessoas com mobilidade reduzida, uso de linguagem clara e abertura de canais para envio de contribuições remotas, com garantia de resposta e registro. O efeito prático seria importante: participação ampliada, mais transparência e chance real de incorporar o desenho universal já na concepção das obras.

Porém, os detalhes fazem toda a diferença. A lei precisa definir prazos mínimos para divulgação, padrões técnicos para acessibilidade de materiais (como PDFs pesquisáveis, vídeos com legenda e audiodescrição), mecanismos de convocação ativa de organizações representativas de pessoas com deficiência e formatos de participação remota com garantia de tempo de fala e registro fiel das contribuições. Sem esses pontos, o texto corre o risco de virar mais uma norma bem-intencionada, porém fraca para mudar a prática cotidiana.

Comunicação de empresas e prefeituras

A forma como empresas de transporte e prefeituras comunicam obras, desvios de itinerário e alterações de serviços mostra, no dia a dia, a distância entre a norma e a realidade. Em geral, mudanças são divulgadas por redes sociais, notas curtas e comunicados em sites institucionais. Com frequência, faltam informações específicas sobre acessibilidade alternativa durante a obra, localização de pontos de embarque temporários e como pessoas com mobilidade reduzida serão atendidas durante o período.

Uma comunicação realmente transparente precisa ser clara e acionável. Ou seja: informar quais linhas têm elevadores ou piso baixo; quais paradas temporárias mantêm nível adequado de embarque; previsão de duração das interrupções; canais diretos para reclamação e pedido de suporte; além de mapas acessíveis e rotas alternativas. Na prática, a falha costuma ser dupla: formatos pouco acessíveis e pouca empatia com quem depende daquele trajeto para trabalhar, estudar ou chegar a consultas de saúde.

Além disso, empresas e prefeituras precisam padronizar e divulgar indicadores públicos — por exemplo, a porcentagem da frota acessível em operação diária, o número de elevadores funcionando por estação e o tempo médio de resposta a denúncias. Sem isso, usuários ficam no escuro e ativistas perdem instrumentos objetivos para cobrar mudanças.

Fiscalização e cumprimento das normas

Para que leis e políticas saiam do papel, é necessário ter instrumentos de fiscalização claros e acessíveis. Hoje, a cobrança passa por vários caminhos: fiscalização municipal e estadual, Ministério Público, ouvidorias, ações civis públicas e denúncias individuais. Embora seja possível recorrer à Justiça ou ao MP quando direitos são desrespeitados, esse percurso tende a ser longo, caro e desgastante para quem precisa se deslocar diariamente.

Por isso, estruturas de fiscalização mais proativas fazem diferença. Elas podem incluir inspeções periódicas com divulgação de relatórios, uso de tecnologia para acompanhar a disponibilidade de equipamentos (elevadores, plataformas, ônibus com piso baixo) e canais de denúncia com protocolos claros e prazos de resposta definidos. Ferramentas digitais, como aplicativos e painéis públicos online, permitem mapear falhas quase em tempo real e geram pressão social imediata.

Há bons exemplos de prefeituras que mantêm mapas atualizados de estações e equipamentos em funcionamento, com histórico de manutenção, e empresas que publicam relatórios sobre a disponibilidade da frota acessível. Em sentido oposto, comunicados esporádicos e ausência total de dados consolidados alimentam a sensação de impunidade e corroem a confiança da população nas instituições.

Relatos e experiências de usuários

Os relatos de quem está na rua todos os dias mostram com mais nitidez o que funciona e o que não funciona. Usuários descrevem situações frequentes: elevadores de estação quebrados por semanas, falta de indicação clara de pontos de embarque alternativos durante obras, ônibus anunciados como acessíveis com rampas defeituosas ou motoristas sem preparo, além da humilhação e do risco físico quando alguém precisa ser carregado por outras pessoas para vencer escadas.

Por outro lado, também aparecem experiências positivas. Em alguns casos, prefeituras comunicaram obras com antecedência, garantiram transporte assistido temporário e chamaram associações de pessoas com deficiência para discutir rotas alternativas antes de fechar o plano. Esses exemplos indicam que mudança é possível quando há vontade política, escuta ativa e planejamento.

Em síntese, os depoimentos reforçam uma ideia central: acessibilidade não se limita à infraestrutura física; envolve comunicação contínua, manutenção adequada e respeito à autonomia. Para ativistas, essas histórias formam um conjunto de evidências que sustenta denúncias, ações coletivas e propostas legislativas mais precisas.

Conclusão

A legislação avançou, com normas recentes que reforçam prioridade e reserva de espaços para pessoas com mobilidade reduzida. A disputa principal agora é outra: fazer com que esses direitos apareçam no cotidiano de quem espera o ônibus, pega o metrô ou depende de um elevador em funcionamento. Para chegar lá, é fundamental transformar audiências públicas em espaços reais de incidência — com divulgação acessível, logística inclusiva e retorno concreto às contribuições — e melhorar a comunicação de empresas e prefeituras, permitindo que cada pessoa planeje seus deslocamentos com mais segurança.

Usuários e ativistas têm papel decisivo nesse processo: relatar, fiscalizar, registrar e propor. Do lado do poder público e das empresas, é preciso compromisso consistente com manutenção, transparência e desenho universal. Quando leis, normas técnicas, tecnologia e participação social atuarem em conjunto, a acessibilidade deixa de ser promessa no papel e passa a se traduzir em cidade que garante autonomia e dignidade nos trajetos de todos os dias.