De clube negro em 1955 ao sambódromo: a trajetória do Carnaval de Batatais

Dirigentes e antigos participantes enfatizam que as escolas de samba desempenham papel social contínuo

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Nando Medeiros
· 2 minutos de leitura
De clube negro em 1955 ao sambódromo: a trajetória do Carnaval de Batatais

Batatais celebra uma tradição com mais de seis décadas: o Carnaval local nasceu em 1955 com a criação da escola de samba Princesa Isabel, formada dentro de um clube fundado por moradores negros que buscavam um espaço próprio diante da exclusão social da época. A agremiação foi a primeira a desfilar como escola de samba na cidade, abrindo caminho para outras formações com identidade regional, como Stella, Riachuelo, UE4, a escola da Jumil e, mais tarde, a Castelo — que viria a se tornar a mais vitoriosa da história batataense.

A organização dos desfiles transformou a festa em competição a partir das primeiras décadas e, especialmente na década de 1980, o Carnaval de Batatais ganhou projeção regional, atraindo público de municípios vizinhos e movimentando comércio, hotelaria e serviços. Entre as agremiações consolidadas está a Acadêmicos do Samba, fundada em 1979, que acumulou três títulos nos anos 1980. Dirigentes lembram com orgulho as campanhas vitoriosas, como o enredo sobre Clara Nunes em 1989 e a participação inusitada, em 1996, do Boi Garantido, que veio diretamente de uma apresentação em Paris para integrar um desfile na cidade.

Com o crescimento, os locais dos desfiles também mudaram: da região central e da Praça da Matriz para avenidas como Nove de Julho, Quatorze de Março e Moacir Dias de Moraes. Após Batatais conquistar o status de Estância Turística em 1994, foi viabilizada a construção de um sambódromo, concluído em 2001, que passou a abrigar a maior parte dos desfiles.

A trajetória, porém, teve interrupções. Recursos direcionados à obra do sambódromo provocaram pausas entre 1999 e 2001; nos anos recentes, o Carnaval foi suspenso em 2015, retomado em 2018, suspenso novamente e voltou a ser realizado em 2024. As ausências foram justificadas por falta de investimentos e, posteriormente, pela pandemia de Covid-19.

Nos últimos anos, o formato do evento se ampliou: além dos desfiles competitivos, a programação incorporou blocos de rua, shows e a eleição da corte carnavalesca, reunidos sob a marca Batatais Folia. A festa passou a ocupar múltiplos pontos da cidade e a fortalecer o turismo local.

Dirigentes e antigos participantes enfatizam que as escolas de samba desempenham papel social contínuo. Atividades ao longo do ano, como escolinhas de percussão para crianças, são vistas como ferramentas de inclusão e formação cultural, afastando jovens das ruas e garantindo a continuidade do Carnaval. Para veteranos como o radialista e dirigente que ajudou a estruturar a festa nas décadas passadas, o Carnaval é mais do que espetáculo: é parte da vida e da identidade da comunidade, mantida por iniciativas como a Casa do Samba e eventos nas quadras das agremiações.

Hoje, a festa de Batatais permanece como um elemento central da vida cultural local: produto de resistência, transformação e adaptação, que continua a unir tradição, memória e ação comunitária.