Uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC), em parceria com o Ministério da Educação (MEC), revelou que 71,7% dos gestores de escolas públicas afirmaram ter dificuldade para dialogar sobre violências no ambiente escolar, entre elas bullying, racismo e capacitismo. O levantamento ouviu 136 gestores de 105 unidades (59 municipais e 46 estaduais) e foi divulgado na quarta-feira, 6 de maio de 2026. O novo Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras, produzido a partir desse estudo, foi lançado pelo MEC no dia seguinte, 7 de maio, no canal oficial da pasta no YouTube.
Além da dificuldade em abordar episódios de violência, a pesquisa identificou outros entraves recorrentes: 67,9% dos gestores relataram problemas na aproximação entre escola, famílias e comunidade; 64,1% citaram obstáculos para construir bons relacionamentos entre estudantes; e 60,3% assinalaram dificuldades tanto para desenvolver o sentimento de pertencimento dos alunos quanto nas relações entre estudantes e professores. Quase metade (49%) apontou fragilidade na promoção do sentimento de segurança entre os estudantes.
O levantamento também mostrou que 54,8% das escolas nunca realizaram um diagnóstico estruturado do clima escolar, ferramenta considerada pelos autores essencial para orientar políticas de convivência e aprendizagem. Em 67,6% das unidades existe uma equipe dedicada a ações de melhoria do clima; nas demais (32,4%), essas iniciativas ficam a cargo diretamente da gestão, que frequentemente convive com sobrecarga de tarefas e atua mais de forma reativa do que preventiva.
Para o coordenador do estudo, Adriano Moro, do Departamento de Pesquisas Educacionais da FCC, a naturalização de agressões, quando adultos classificam ofensas como “brincadeiras”, e a dificuldade de envolver famílias e comunidades tornam a atuação da escola mais complexa. Moro também criticou o uso genérico do termo "bullying", que pode encobrir formas específicas de violência, como racismo, violência de gênero ou capacitismo.
A pesquisa ouviu escolas em dez estados entre março e julho de 2025 (Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Sergipe e São Paulo). O estudo foi divulgado na mesma semana em que o governo federal recriou um grupo de trabalho técnico no MEC para subsidiar políticas de combate ao bullying e ao preconceito na educação; o GT tem prazo inicial de 120 dias para apresentar um relatório com propostas e conclusões.