Uma tese apresentada ao Departamento de Geografia da USP concluiu que a expansão do agronegócio sucroenergético na região de Araraquara provocou forte reorganização do campo, com impactos negativos sobre o emprego e a qualidade de vida dos trabalhadores rurais. O estudo do geógrafo Anderson Santos, orientado pelo professor Anselmo Alfredo, mapeou mudanças desde a década de 1960 e destacou como a consolidação da monocultura da cana-de-açúcar e a modernização das lavouras reduziram oportunidades de trabalho formal e aprofundaram a concentração de terras.
A pesquisa, que reuniu entrevistas com pequenos proprietários, colhedores de laranja e trabalhadores das usinas, aponta que políticas públicas, incentivos ao crédito rural, mecanização e programas como o Proálcool favoreceram a expansão das plantações de cana sobre antigos pomares e áreas de produção diversificada. Na prática, isso levou muitos produtores a arrendar suas propriedades para grandes usinas e empurrou parte da população rural para ocupações urbanas ou para trabalhos sem vínculo empregatício.
Santos mostrou que a mecanização eliminou postos de trabalho no setor canavieiro, enquanto a citricultura remanescente continuou a depender de colheita manual, com oferta reduzida de vagas. Esse descompasso obrigou trabalhadores a se deslocarem cada vez mais longe, muitas vezes por horas em ônibus fretados, para acessar frentes de trabalho, aumentando o desgaste físico e comprometendo o convívio familiar. Depoimentos coletados pelo pesquisador relataram jornadas onde o tempo de viagem se soma ao tempo de trabalho, sem garantias formais ou acesso regular a direitos trabalhistas.
O estudo também discute a concentração fundiária: a ampliação das áreas cultivadas por grandes grupos ocorreu via compra e arrendamento de terras, além de instrumentos financeiros que facilitaram a expansão. Para o orientador Anselmo Alfredo, a tese amplia o debate sobre os efeitos sociais desse modelo de desenvolvimento, ao ir além dos números econômicos e trazer à tona a reprodução social e a perda de vínculos da população com a terra.
Ao documentar essas transformações, a pesquisa sugere a necessidade de políticas públicas que enfrentem a precarização do trabalho rural, incentivem formas de produção mais diversificadas e protejam o direito ao trabalho digno nas comunidades afetadas pela expansão sucroenergética na região de Araraquara.